Mas que coisa é homem,
Que há sob o nome:
Uma geografia?
Um ser metafísico?
Uma fábula
Sem signo que a desmonte?
Como pode o homem
Sentir-se a si mesmo,
Quando o mundo some?
Como vai o homem
Junto de outro homem,
Sem perder o nome?
E não perde o nome
E o sal que ele come
Nada lhe acrescenta
Nem lhe subtrai
Da doação do pai?
Como se faz um homem?
Apenas deitar,
Copular, à espera
De que o abdomen
Brote a flor do homem?
Como se fazer
A si mesmo, antes
De fazer o homem?
Fabricar o pai
E o pai e outro pai
E um pai mais remoto
Que o primeiro homem? (...) (Andrade, Carlos Drummond de. Especulações em torno da palavra homem. In:Obra Completa, Rio de Janeiro: José Aguilar, 1967,p.302)
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segunda-feira, 22 de março de 2010
sábado, 20 de fevereiro de 2010
Verdade
VERDADE
A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez
Assim não era possível atingir toda a verdade,
Porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade
E os meios perfis não coincidiam
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade resplandecia seus fogos.
Era dividida em dois metades
diferentes uma da outra
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar.
Cada um optou conforme seu capricho,
sua ilusão, sua miopia.
Andrade, Carlos Drummond
Corpo. 9° Ed Record
R.J. , 1986.
A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez
Assim não era possível atingir toda a verdade,
Porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade
E os meios perfis não coincidiam
Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram ao lugar luminoso
onde a verdade resplandecia seus fogos.
Era dividida em dois metades
diferentes uma da outra
Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
Nenhuma das duas era totalmente bela.
E carecia optar.
Cada um optou conforme seu capricho,
sua ilusão, sua miopia.
Andrade, Carlos Drummond
Corpo. 9° Ed Record
R.J. , 1986.
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